David Mamet fala aos escritores

David Mamet fala aos escritores,

Olá,

Conforme aprendemos sobre como escrever esse show, um problema recorrente fica evidente. O problema é o seguinte:

Saber a diferença entre drama e não-drama.

Todos na criação estão gritando conosco para fazer o show claro. Fomos demandados com o que parece ser entupir um monte de informação em um pequeno espaço de tempo.

Nossos amigos, os pinguins ( homens engravatados ) pensam que nós somos empregados para comunicar informação.

Mas note: A audiência não nos assiste por causa das informações. Ninguém quer isso, nem eu, nem você, ninguém. A audiência nos procura porquê quer assistir drama.

Questão: O que é drama?

Drama, mais uma vez, é a jornada do herói para superar tudo aquilo que o impede de atingir um objetivo específico.

Então: Nós, os escritores, precisamos nos perguntar em toda a cena essas três questões.

Quem quer o que?
O que acontece se ela não conseguir o que precisa?
Porquê agora?

As respostas para essas questões testes no papel. Aplique-as e a resposta irá anunciar se a cena é dramática ou não.

Se a cena não tiver sido dramaticamente escrita, ela não vai ser encenada dramaticamente.

Não há pó mágico que transformará uma cena cansativa, inútil, redundante ou meramente informativa em algo interessante depois que sair da sua maquina de escrever. Vocês, os escritores, estão encarregados de ter certeza de que cada cena seja dramática.

Isso significa que toda cena expositiva, por menor que seja, de duas pessoas conversando sobre uma terceira pessoa. Essa bobagem ( e todos nós tendemos a escrever assim no primeiro rascunho ) é menos que inútil. Deveria ser proibida de ser filmada.

Se a cena é entediante quando você lê, é seguro que vai entediar os atores e provavelmente vai entediar ao público, e todos nós vamos voltar para a fila do pão.

Alguém precisa fazer a cena dramática. Não é trabalho dos atores – o trabalho dos atores é o de serem verdadeiros. Não é o trabalho do diretor.

Toda cena precisa ser dramática. Isso significa: O personagem principal precisa ter um objetivo simples, direto, focado que o projete de aparecer na cena.

Essa necessidade é a razão pela qual eles existem. É sobre o que a cena fala. A tentativa do personagem de conseguir o que precisa vai conduzir, no fim das contas, a falhar – é assim que a cena acaba. Essa falha vai então nos impulsionar em direção a próxima cena.

Todas essas tentativas juntas, ao longo do caminho do episódio, constituir o plot.
Quaisquer cenas que: ou não levem o plot adiante, ou que não se sustentem sozinhas ( isso é, dramaticamente ) é, ou supérflua ou incorretamente escrita.

Mas você me diz: É a necessidade de escrever toda aquela informação?

E eu respondo: Descubra! — Qualquer idiota com um terno azul pode ser ( e é ) ensinado a dizer : “Seja mais claro”, e “eu quero saber mais sobre esse personagem”. Quando você tiver sido tão claro que mesmo um engravatado de terno azul estiver feliz, ambos, você e ele, terão terminado seus trabalhos.

O trabalho do dramaturgo é fazer a audiência pensar sobre o que acontecerá em seguida. Não explicar a eles o que acabou de acontecer, ou sugerir o que acontecerá.

Qualquer idiota pode escrever: “mas, Jim, se nós não assassinarmos o primeiro ministro na próxima cena, toda Europa será tomada por destruição”.

Nós não somos pagos para perceber que a audiência precisa dessa informação., mas para compreender como escrever a próxima cena diante de nós de forma que a audiência esteja interessada no que vem adiante.

E você reitera de que precisa de informação na cena. E eu respondo: descubra uma maneira.

Como será que alguém balanceia entre segurar e entregar informações? Essa é a tarefa fundamental do dramaturgo. E a habilidade de fazer isso é o que nos separa da espécie dos engravatados.

Comece sempre com essa regra inviolável: A cena precisa ser dramática. Precisa começar sempre porque o herói tem um problema, e precisa culminar com o herói encontrando a solução ou se reeducando de que outro caminho é possível.

Leia suas log lines, qualquer logline em que se lê: “Bob e Sue discutem” não descreve uma cena dramática.

Lembre-se de que os rascunhos geralmente não são espetaculares. O drama começa a fluir a partir do primeiro tratamento. Pense como um cineasta, não como um funcionário, porquê na verdade, você está fazendo um filme. O que você escrever, eles irão filmar.

Aqui estão os sinais perigosos: A qualquer momento em que dois personagens estiverem falando sobre um terceiro, essa cena será um lixo.

Qualquer momento em que um personagem estiver dizendo ao outro: “assim como você sabe” que é, contar a outro personagem o que você, escritor, precisa contar para o público saber, a cena é um lixo.

Não escreva lixo. Escreva uma cena de três, quatro, sete minutos, que propulsione a história adiante.

Lembre-se de que você está escrevendo para o meio visual. Incluindo o som, como o rádio. A câmera pode fazer explicações para você, deixe-a. O que os personagens estão fazendo. Literalmente, o que eles estão segurando, o que estão lendo. O que eles assistem na TV, o que estão vendo?

Se você quer fazer de conta que os personagens não são capazes de falar, escreva um filme mudo, provavelmente você vai escrever um grande drama.

Se você se priva da narração expositiva, da fala, você vai ser levado a trabalhar para esse meio, contando a história em imagens.

Essa é uma nova habilidade, ninguém a faz naturalmente, você pode se treinar para fazê-la mas precisa começar.

Eu encerro com um pensamento: Olhe para a cena e pergunte a si mesmo: “Ela é dramática? É essencialmente ? Ela avança com a narrativa ?

Responda verdadeiramente.

Se a resposta for “não”, escreva novamente e jogue a cena anterior fora.

Com amor,David Mammet, Santa Mônica, 19 de outubro de 2005

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